Carta Final – SINGA 2017

Prezad@s,

Com um certo atraso e já incluídas as sugestões apontadas durante a plenária final do evento,  aproveitamos para divulgar a CARTA FINAL DO SINGA 2017. Sintam-se à vontade para divulgar e até o próximo SINGA em Recife, em 2019!

CARTA FINAL DO SINGA 2017

Entre os dias 01 e 05 de novembro, nós, pesquisadoras e pesquisadores, militantes, povos e comunidades tradicionais, povos indígenas, participantes de projetos de extensão e cultura, estudantes de todos os estados do Brasil e de vários países da América Latina conseguimos nos reunir na cidade de Curitiba para construir o VIII Simpósio Internacional de Geografia Agrária e o IX Simpósio Nacional de Geografia Agrária. Não foi fácil! Diante do desmonte sistemático da educação pública, gratuita e de qualidade tem tentado se reduzir cada vez mais o campo da pesquisa em todas as áreas e, em especial, naquelas mais compromissadas com a denúncia dessa realidade atravessada por múltiplas desigualdades e violências, como é o caso da proposta do SINGA desde seu início. Com isso, a possibilidade de participação de muitas e muitos foi impossibilitada.

Vivemos tempos de grandes perdas de direitos e de violência institucionalizada, que não só atacam quem está dentro da Universidade, mas também quem está fora dela. O SINGA mostrou com clareza e cuidadosa contundência como nos mais diferentes locais do Brasil e do restante de América Latina os conflitos por terra e território, mas também por identidades de gênero, étnicas, etc. se multiplicam sem que haja uma ação decidida para evitá-los, resolvê-los ou, no mínimo, mitigá-los. Pelo contrário, os retrocessos vêm sendo anunciados e executados dia após dia nas diversas esferas de poder, tanto no campo quanto na cidade. Um período de evidente suspensão da democracia por parte de grupos políticos parasitários, como a Bancada Ruralista, representantes da exploração em diversos âmbitos – como através do agrohidronegócio e da mineração – vem sendo marcado pela supressão de direitos conquistados durante décadas, pela violação da natureza e, consequentemente, pela mercantilização da vida com uma rapidez e uma ferocidade inusitadas.

Não nos calamos frente a essa situação que privilegia o medo como instrumento chave do controle social, seja este medo manifestado na violência banalizada, no abismo social do desemprego ou na precariedade da vida em todas suas dimensões. Também não nos contentamos com o sufocamento imposto dia após dia através dos meios e das redes hegemônicas de comunicação, muito menos com a melancolia como ordem e sentimento naturalizado ou com a perda de horizontes políticos. Não temos dúvida de que este movimento representa uma lógica opressora, que quer calar os saberes produzidos criticamente nas universidades junto aos movimentos sociais e comunidades e apagar o reconhecimento da riqueza das diferenças. Querem nublar a nossa visão ao defenderem um modelo em colapso, mas que mesmo assim não perde a sua força, ou nos fazerem crer na deliberada hegemonia do medo e da morte, do controle, da exploração e da violência como únicas possibilidades.

Apesar das sombras como marcas destes tempos e de tanta lama pelo caminho, o SINGA 2017 teve como proposta a construção de um momento de exaltação das luminosidades e cores em diversos cantos da América Latina, consistindo-se num espaço de reconhecimento da diversidade e da vitalidade dos sujeitos e de territórios em luta. Por isso, tendo como lema e orientação uma “geografia das redes desde baixo”, o SINGA 2017 mostrou que é preciso ir além do dos limites do estado e do capital para abrir portas, viabilizar alternativas e vislumbrar horizontes de transformação. Neste sentido, apostamos na potência das diversas redes de articulações, sejam elas em nível de pesquisa ou em nível territorial, junto aos grupos que resistem, seja nas universidades, seja nas comunidades em seu sentido mais amplo.

Desde este SINGA onde cabem muitos SINGAS, queremos lançar um grito contra e outro a favor: contra esse sistema que pretende nos acuar nos repetindo que não e possível mudar e que o caminho é único; e a favor de continuar, desde baixo, semeando a rebeldia e resistência em defesa dos nossos territórios de vida.

 

                Curitiba (PR), 5 de novembro de 2017

 

 

 

 

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